Julieta

Era o final da manhã, de um belo dia primaveril. Já o sol ia alto na aldeia altaneira de Paços, e os seus habitantes se preparavam para forrar os estômagos , cansados e famintos, depois de uma manhã de trabalho nas lavouras, quando se depararam com a bizarra imagem de um cavalheiro encartolado calcorreando o caminho, colina acima, com vincado esforço desenhado pelo suor que lhe escorria no rosto, ainda assim, bem mais leve que a mulher que o seguia, com os pés descalços e sujos de lama, arreada como uma mula, com as malas à cabeça, carregadas  sabe-se lá do quê, pertences do forasteiro que a havia contratado.

Seguiram-nos olhares curiosos, que os viram entrar na casa do Ermo, já perto de meio dia, dali já só saiu instantes depois de entrar, a maltrapilha mulher, que corria desta feita, colina abaixo com os bolsos a chocalhar, certamente do pagamento merecido.

Logo circulou a notícia, em cada canto da aldeia, que na casa do Ermo estaria escondido um tal de Camilo Castelo Branco, escritor e amigo do honrado Senhor José Vieira de Castro e sua esposa Claudina, o qual estaria fugido à policia, não se sabia bem porquê, mas constava-se que por ter um romance pecaminoso e pouco honrado com uma senhora casada.

Dizem que certo dia se passeava pela rua, todo aprumado,  de cartola e bengala na mão, quando foi abordado por uns moços ranhosos e descalços, que lhe pediam umas moedas em troca de serviços, ao mesmo tempo que rabunhavam as feridas da cara com as mãos cheias de lama. Não tiveram tempo de fazer o negócio, pois ao fundo surgia um carro da polícia que, mal foi avistado pelo forasteiro, o mesmo ganhou velocidade de lebre e, de um salto, se lanço numa mina adentro que, por sorte do destino, ali estava mesmo ao lado, em jeito de salvação!

Os moços ainda ali esperaram o escritor, que só deu ares de si passadas horas, quando lhe garantiram que o perigo já hava passado, mas, mesmo assim, pois dizem que a prevenção morreu de velha, lhes pediu que lhe fossem pedir um cobertor , uma garrafa de vinho quinado e uma malga de sopa à casa do Ermo, e que lhe entregassem à entrada da mina, pois ali iria pernoitar. “ O Diacho do homem é bravo!”, contariam mais tarde os moços, mostrando as moedas que ganharam e rindo do susto que o homem apanhou ao ver a polícia: “Tamanho, que ficou branco como farinha!..., e que fez o ninho no meio dos ratos, e nem das cobras teve medo!”.

Outras alturas foi o sujeito avistado na ponte, sentado numa pedra, de pena na mão e olhar absorto no reflexo do sol pintado nas curvas do rio. “Era estranho o sujeito”, diziam, “olhava para o caudal do rio, como se nele avistasse anjos, de olhos melosos de puro delírio. Lá ras bandas dele não devia de haver água…”. O que tanto escrevia, ninguém sabia, nem chegaria a saber tão cedo. Mas adivinhava-se nas redondezas que haveriam de ser tolérias, já que por detrás dos seus óculos redondos que lhe adornavam o nariz, não tinha lá cara de muito fino.

 

Nos finais de tarde, quando o sol dava sinal de tréguas, lá se avistava o seu vulto ao longe,  entre as laranjeiras, muitas vezes acompanhado de um cão, que certamente era seu amigo, pois o visitava muitas vezes. Chamava-se Neptuno e dúvidas não havia de que se davam bem. O animal aninhava-se a seu lado enquanto aproveitavam a sombra e escutava atentamente a conversa do seu parceiro escritor, que haveria de ser interessante, pois o Neptuno não arreava o pé, ou melhor, a pata, do seu lado, de ouvido atento às histórias do outro.  Já quando provavam as laranjas, era o delírio da moçarada que os espreitava!: “O tolo do homem fazia sempre o mesmo, provava uma laranja e torcia as beixas de tal forma , que parecia que comia trampa. E a seguir dava a provar ao bicho, que o mandava dar uma volta. Ria-se muito e depois dizia;, - “O Fel comparado com isto sabe a doce de ovos, arre!”.  O animal, depois de muito passear e de dar meia dúzia de ladradelas lá se despedia dele, que o fitava até desaparecer no horizonte, de cauda a abanar, enquanto lhe acenava com a mão direita: - “Até amanhã, meu bom amigo!”. E lá regressava ao Ermo, acenando às mulheres que encontrava no caminho, com um sorriso tão triste quanto malandro e desviando o olhar dos seus maridos, saudando-os de soslaia, com mais cautela.

Muitas vezes o apanhavam a suspirar, no meio dos campos, outras, afirmam alguns, dormitava de barriga ao alto e acordava sobressaltado, gritando pelo nome de uma “Ana!”. Quem seria a tal da Ana, era o que o povo se perguntava, e alguma linguas de trapo mais afiadas, se deitavam a adivinhar, mas em vão.

Mais tarde souberam, que não eram apenas delírios do sol, mas puros delírios de amor, já que a tal Ana por quem tanto suspirava o forasteiro, era uma tal de Ana Plácido, uma mulher casada, por quem  Camilo se havia enamorado e envolvido e, por isso, condenado.

A temporada em que foi hóspede de Paços, diziam os criados do Ermo, que era tratado como um rei. Cochichavam nas ruas e botecos que era apreciador do vinho quinado e que se lambuzava com as queijadinhas até ficar com o estômago embrulhado de tal forma, queno dia seguinte se apagava na cama condoído com os males da barriga.  Também se regalava com os guisados de coelho e que até lambia o prato, inquirindo muitas vezes o Sr. Dr. Vieira de Castro de que toca saia tamanha família. Certo dia, para se rirem, levaram-no à caça com os criados. Horas depois, já depois do sol se despedir, contava alguém a gargalhadas arrancadas da alma no tasco da serrania, que vira chegar o criado com uma braçada de coelhos dum lado e o escritor pendurado no outro, mal acordado.  Ao que parece desmaiara quando viu um ds cães abocanhar o pequeno saltitante e abaná-lo de tal maneira que quase lhe saltou fora a cabeça. “- Não tem estômago para isto, - ria o Senhor da casa, contando a aventura à esposa. “- E quando viu o criado pegar no pau para apagar o jantar, saltou-lhe na frente e pediu-lhe que parasse com  a violência, que preferia o sacrificio de comer as laranjas. Santo Deus!!”.

A Senhora não achava piada às grosseiras anedotas do marido e ficava do lado do Sr. Camilo, encomendando chás  e ares frescos aos empregados, enquanto o pobre estivesse em agonia, fosse da alma ou do corpo.

Lá chegou o dia da partida, logo a seguir ao cantar do galo. As pessoas faziam marcha lenta ao passar na portada do ermo, ou mesmo estacavam a olhar a despedida, que a todos tocou, pois já se haviam habituado ao estranho.

“_ volte sempre meu Amigo, a minha casa é sua!” , dizia-lhe o Senhor Vieira de Castro com sincero abraço. Já a Senhora dava-lhe a mão, com tristeza estampada nuns olhos apagados, que ali todos eram sabedores da causa, não era ali feliz, nem na terra e nem no casamento, a pobre Claudina. Regressou às Taipas e de lá foi para Vila Real, fugindo, uma vez mais, da polícia que chegava a terras de Fafe para o prender, coisa que mais cedo ou mais tarde, viria a dar-se.

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